quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A grande narração do mundo

Um Álbum fotográfico de Ricardo Fonseca

Nos passos da excelência editorial, os nossos caminhos alcançam o mundo todo pelo olhar de Ricardo Fonseca. São «Registos do Olhar» coligidos no indizível: um álbum de fotografias de papel brilhante, embutidas em grandes páginas branco baço. O olhar é nómada, tal como passa a ser a alma do espectador por ele aprisionada. Um Cosmorama, refere Mário Cláudio sobre o universo feito espectáculo, no texto de introdução que comprova que também o escritor ficou cativo do olhar do fotógrafo.

«Aparição do mundo: a terra escorre /Pelos olhos que a vêem revelada», dizem versos de Sophia e que Ricardo Fonseca enche de sentido. Por isso, a viagem é imperdível. É-o do Alentejo à muralha da China em silêncios comunicantes, do labor da ria de Ovar a Guangdong, do Porto a Praga. É-o nos rostos que o disparo mágico perpetua, de crianças do Foradouro a Chiang-Mai ou dos velhos de Barcelos a Goa. Parafraseando Goethe, «somente agora, pois, a Odisseia tornou-se para mim palavra viva».

Munido da máquina que capta o mundo, «de luzes e lentes, desvenda-nos ele o planeta que nos coube, e onde soa a música da charamela que acompanha a actuação das criaturas», escreve Mário Cláudio no texto de introdução. A realidade é decantada e fixada por um processo de encenação, e assim a arte fotográfica não copia, antes recria e questiona o real.

«O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo. Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma – estagna o pensamento. Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta – sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo», escreveu Al Berto.

Ora, este álbum de Ricardo Fonseca nega o sedentarismo e o «fado de sermos sós», opera no espectador essa união com o universo, instigando-o a participar no enredo com o seu próprio olhar. «E aqui é que entramos em cena todos nós, espectadores que por fim acederam aos segredos da função. De facto não há quem sinta sem ser sentimento(…) a todos cabe o direito à indetível passagem pelo cosmorama de feira», escreve Mário Cláudio. Entramos e jamais saímos deste mapa-múndi narrativo onde acontece um grand tour pessoal.

Discursos infinitos do olhar

«Fascinados pelo rodopio de projecções do cosmorama», é no entanto impossível não se encetar o diálogo e fazer-se a consequente recriação do mundo dos fotogramas. Solta-se o discurso sobre a vida, a morte, os credos: Cristo crucificado em Macau ou a sua figuração humana, fatídica e sinistra, em Vilar de Perdizes, para, no passar da página surgirem figuras de Buda, em Bangkok, alheias aos conceitos da morte e do trágico, gozando e exalando o precioso Nirvana. Segue-se o exotismo de Katmandu, rituais de morte de Pashupatinath, e o silêncio de um cemitério relvado com cruzes brancas, em Manila, onde assoma, num audível encarnado, um sinal Stop. O carácter histriónico da morte surge, com o seu esqueleto, em Nova Iorque, em Pashupatinath, ou no Carnaval de Veneza; máscaras da vida são detidas em Vila Nova de Gaia, Patan, Goa e Banaué, e o exotismo figurativo é colhido em Singapura, Ilha de Lantau, Kathmandu e Amesterdão.

Metáforas da vida humana e da existência das coisas enformam, ainda, outros discursos sobre o efémero, o transitório, a espera. Eles estão nas casas de Cuenca em equilíbrio nas escarpas vermelhas, nos edifícios em flutuação nos planos líquidos de Veneza, nas gaiolas de aves de Hong kong – como as dos homens nos arranha-céus de Kuala Lumpur- para se seguirem outras asas, livres, mas imóveis, as de uma gaivota em são Francisco, e o da ave de Helsíquia, num interregno do voo para a entrega a uma espera. Idêntico estatismo num misto de espera intensa e abandono verifica-se no homem da loja de tecidos garridos de Goa, com uma fita métrica pendente do pescoço e na noiva de Hong-Kong, sentada no sopé de uma longa escadaria, no seu vestido branco plissado, e ramo de flores de viço efémero que, também ele aguarda numa reticência, entre a mão mole que o segura e o degrau de pedra…

Enquanto se espera, a câmara escura regista o indefinível e fixa quadros de labor: os dos barqueiros de Guangdong, os da Ria de Ovar, de Sesimbra a bordo do Pastora, ou detém-se em chapéus e espreguiçadeiras no oceano cristalino da Ilha do Coral, no Pó vermelho sequioso de água do Dubai, nas tintureiras de Fez, nas dobadeiras de Shanku, nas lavadeiras de S. Tomé com as roupas coloridas espalhadas na margem do rio que as lava.

Peregrinação infinita, esta, que nos dá Ricardo Fonseca, que «só no infinito atinge o cais de chegada», escreve Mário Cláudio. Tal como Ulisses na busca da sua Ítaca, o mais importante não é chegar, é partir e viver a grande travessia, como lembrou o poeta egípcio Constantine Cavafy: «Mas não te apresses nunca na viagem. / É melhor que ela dure muitos anos, /que sejas velho já ao ancorar na ilha, / rico do que foi teu pelo caminho, / e sem esperar que Ítaca te dê riquezas. / Ítaca deu-te essa viagem esplêndida. / Sem Ítaca, não terias partido. Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te. / Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu. / Sábio como és agora, senhor de tanta experiência, / terás compreendido o sentido de Ítaca

Nota: Ricardo Fonseca é autor dos livros "Imagens/Miragens", com texto de Cecília Jorge, "A Cidade do Levante e Oriente", ambos com texto de Mário Cláudio, "Taipa e Coloawe", com texto de João Carvalho, "As Cinco Portas de Macau", com texto de João Aguiar. É co-autor do livro comemorativo da chegada dos portugueses ao Japão, "450 Anos de Memórias", com texto de Michael Cooper.


Registos do Olhar, Ricardo Fonseca; Editorial Campo das Letras, Porto, Novembro 2006

© Teresa Sá Couto

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